Nos Vitrais dos meus Olhos

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quarta-feira, 16 de maio de 2018

PREVIDÊNCIA ANIMAL

         O Jaburu, presidente dos animais, juntamente com o Leão, seu Ministro da Fazenda, convocou a imprensa para uma coletiva a fim de informar sobre o déficit previdenciário, aparentemente existente na república animal. Falou que muito do "rombo" da previdência se deve à aposentadoria precoce das centenárias tartarugas, do expressivo salário-maternidade "dado" às coelhas, além dos inúmeros benefícios concedidos aos vira-latas, como o auxílio-exclusão. A bicharada ficou revoltada, sobretudo a galinha de granja, que trabalha em regime de escravidão, pondo 40 ovos por dez reais e tendo expectativa de vida de 8 semanas.
         O presidente Jaburu disse à população que não tinha o que temer, pois o Congresso Animal, formado por aves de rapinas, tinham pena, e não iriam curvar seus bicos diante desta grave situação. "Todos os animais (em suas questões) seriam devidamente apreciados", afirmou o seu ministro Leão.
         A discussão previdenciária, hoje, está pendente, até que se vote as eleições de outubro, que nesse pleito, tem proibida a candidatura de animais marinhos como Lula; e põe-se em dúvida outros bichos que venham da marina...
        O Jaburu pensa em pousar novamente no Planalto. Tucanos já escolheram seu candidato. Boisonaro quer tomar o poder. "Quem será o escolhido pela fauna de eleitores?" - pergunta a Esfinge. Quem não responder certo... Pode morrer.


domingo, 19 de julho de 2015

MAIORIDADE (MENORIDADE) PENAL


A incompetência do Estado nos projetos de Educação e em Segurança Pública é toldada pela imagem criminal do menor infrator. A lupa sai da causa para a consequência.  E uma caneta de quem está de paletó, e representa a elite, desenha grades para a puberdade mal formada, via de regra, preta e pobre: mais uma medida imediatista e populista que não apresenta uma pista pra sair dessa barbárie que é a violência.

Uns dos possíveis caminhos para solução é a punição mais severa dos maiores que usam crianças e adolescentes por certeza da impunidade. Assim também como criação de centros bem estruturados de reabilitação para menores, com projetos de esporte, arte e educação, com maior capacidade para acolher os infratores menores, com eficiente atendimento psicológico, médico e de assistência social. E, sem dúvida, acompanhamento desse menor extra-muro, para uma efetiva inserção holística e saudável na sociedade.

Todo menor que comete crime é (ou deve ser) recluso, sim, num espaço corretivo, fora do convívio social e pagar (pedagogicamente) pelos seus erros em relação à sua alteridade e para não reincidir no seu ato criminal. Casos hediondos: assassinato, latrocínio e estrupo devem certamente ter uma atenção maior, com tempo de reabilitação e cuidados maiores, garantindo a devolução de um cidadão capacitado para o bem fazer humano.

Diminuir o tempo de 18 anos para 16 é incentivar adolescentes a conviver com criminosos experientes: dar-lhes uma graduação para ainda maiores infrações, criando um efeito estufa no sistema prisional, liberando um clima de ainda maior insegurança: em casa, na vizinhança, no país.


domingo, 21 de junho de 2015

1984 - George Orwell


George Orwell, 1903 -1950

A obra 1984 uma das mais influentes do século XX do escritor inglês George Orwell, foi escrita em 1948 (observe que o ano do nome do livro é uma inversão do ano em que foi escrito).
O romance é uma distopia (ao contrário da obra de Thomas More). Um retrato de uma sociedade totalitária, controladora da individualidade. Perversa no engessamento das subjetividades e no controle do corpo. A sexualidade era reprimida, assim como toda e qualquer ação criativa, inventiva, que fugisse do enquadramento estabelecido pelo Partido, pelo Grande Irmão (Big Brother).
Dai vem o nome do famoso reality show, onde pessoas ficam confinadas, observadas por câmeras que projetam suas imagens para quem tiver uma TV e um controle remoto na mão.
Assim também (a seu modo) era a sociedade retratada por Orwell. Só que com menos alaridos e entretenimento, e mais poder político coercitivo.
As pessoas eram observadas a todo o momento por uma teletela. Uma espécie de televisão-câmera, que além de vigiar as pessoas, passava instruções.
Todo pensamento fora dos padrões do partido era pensamentocrime. E punido com técnicas das mais horríveis, dentre elas, a lavagem cerebral, que levava as pessoas ao duplipensamento, que consistia em ter duas opiniões divergentes como verdadeiras, “abrigar simultaneamente na cabeça duas crenças contraditórias, e acreditar em ambas” 1984 (2009, p.374).
As palavras acima em itálico lembram o que hoje usamos nos hastegs, como #partiucasa etc. São termos da Novafala, língua criada para domesticar o pensamento dos indivíduos em favor dos interesses do Partido, uma espécie de esperanto do cativeiro, onde as paredes da linguagem impediam a transgressão do pensar-agir. Uma outro exemplo dessas palavras era despessoa. Significava uma pessoa que deixou de existir historicamente, por interesse do partido. Identidade, história, feitos, relatos, tudo era extinto, e o individuo se tornava uma despessoa.
A intenção do autor parece a de soar um alarme, indicando a direção que estamos indo. Que tipo de sociedade estamos construindo. Que nos priva da privacidade. Que nos faz personagens, coadjuvantes atores de nossa própria história, em prol dos poderes instituídos. Apesar de tons proféticos, esse texto literário é também uma descrição do contexto histórico do autor, que experimentava dois pós-guerras, um nazismo e ditaduras comunistas falidas pelo abuso do poder.  



SOBRE O ENREDO

A obra se dá em Londres, território da Oceânia (além da Oceânia, existiam mais dois blocos mundiais, a Eurasia e Lestásia). A sociedade era dividida em três classes: Partido Interno, Partido Externo e os Proletas (proletários – 85% da população). Winston, personagem principal do livro, 39 anos, é um membro do Partido Externo, que tinha pensamentos subversivos, desconfiava do Grande Irmão, não se enquadrava na sociedade criada pelo Partido. Amava o que era corrupto e inutilitário. Quinquilharias e antiquários. Escrevia.
Winston fazia parte do Ministério da Verdade, e sua função era apagar o passado. Isso mesmo, a sociedade de 1984 tinha o passado apagado de acordo com a vontade do poder instituído. Revistas, jornais e até livros eram editados a favor do pensamento do Grande Irmão. Os índices, as pesquisas, tudo era burlado para a manutenção da verdade do Partido.
No decorrer da estória, Winston conheceu Julia, uma moça de sexualidade livre; portanto, transgressora para os moldes sociais, que só previa o sexo para a procriação. Por ela ele se apaixonou (e ela por ele). O romance dos dois era um ato subversivo. Um grito de humanidade. Um gozo político.
Os dois se encontravam no bairro dos proletas, pois lá não tinham as tão onipresentes teletelas. Mas, ainda assim, tudo foi descoberto. E ambos severamente punidos. A punição, muito mais que física, era psicológica (psicodélica). Por instrumentos de tortura, incluindo a hipnose (submissão da mente).
Winston acabou derrotado por dentro. Findara (diante de tanta hostilidade) amando o Grande Irmão. 



FRAGMENTOS DO LIVRO

O Grande Irmão está de olho em você.
Um helicópetero, voando baixo sobre os telhados, pairou um instante como uma libélula.
Nada era ilegal visto que não havia leis.
Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.
... as pessoas são tão hipócritas.
A privação sexual levava à histeria, desejável porque podia ser transformada em fervor guerreiro e veneração ao líder.
Havia uma conexão íntima e direta entre a castidade e a ortodoxia política.
Nossa única vida genuína repousa no futuro. Participaremos dela na condição de pó e fragmentos.
Nenhuma mudança histórica chegou a significar muito mais que uma alteração no nome dos seus senhores.
A vida privada chegou ao fim.
A realidade existe na mente humana e em nenhum outro lugar.
A Polícia das Ideias o observava como se ele fosse um besouro debaixo de uma lupa.




SLOGANS DO PARTIDO

*Guerra é paz
*Liberdade é escravidão
*Ignorância é força

INDICAÇÕES RELACIONADAS

- Utopia, Thomas More.
- Admirável Mundo Novo, aldous Huxley.


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Nonada, onde tudo acontece – percepções de Grande Sertão: Veredas


As lembranças de Riobaldo num fôlego, perturbadas pelas suas contínuas dúvidas, Reinaldo-Diadorim, Deus-homem-diabo. 
A geografia física, política e poética do Sertão. O mundo representado entre jagunços. “O diabo na rua, no meio do redemoinho...”

Seguem fragmentos dessa obra do escritor João Guimarães Rosa (1908-1967), as quais foram marcadas no meu livro pessoal, e que compartilho aqui.

*

1. O senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães...
2. O sertão está em toda parte.
3. Quem muito se evita, se convive.
4. Viver é negócio muito perigoso...
5. A mandioca-doce pode de repente virar azangada [...] de si mesma toma peçonhas.
6. Tudo é e não é...
7. Eu sou é eu mesmo. Divêrjo de todo mundo. Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa.
8. O senhor sabe: sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!
9. Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas...
10. Perto de muita água, tudo é feliz.
11. Não sou homem de meio-dia com orvalhos...
12. Moço: toda saudade é uma espécie de velhice.
13. Abracei Diadorim, como as asas de todos os pássaros.
14. Órfão de conhecença e de papéis legais, é o que a gente vê mais, nestes sertões.
15. Numa alegria feito nuvem de abelhas em flor de araçá
16. Deus existe mesmo quando não há
17. Viver é um descuido prosseguido
18. Cavalo que ama o dono até respira do mesmo jeito
19. O sertão é do tamanho do mundo.
20. Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que o outro cozinhou quente demais.
21. Viver... O senhor já sabe: viver é etcétera...
22. O jagunço é o sertão.
23. Muita coisa importante falta nome.
24. Deus é uma plantação.
25. Sertão é isto, o senhor sabe: tudo certo, tudo incerto.
26. Quem vai em caça, perde o que não acha...
27. Mas a natureza da gente é muito segundas-e-sábados. Tem dia e tem noite, versáveis, em amizade de amor.
28. A gente só sabe bem aquilo que não entende.
29. Natureza de gente não cabe em nenhuma certeza.
30. Pegaram nas mãos do céu com mãos de azul.
31. O sertão é confusão em grande demasiado sossego...
32. Tudo, nesta vida, é muito cantável

Alguns neologismos:
Desesxistir
Me olhantes
Plenipotências

Nomes para o demônio:
O Arrenagado, o Cão, o Cramulhão, o indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Côxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejos.



quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Hoje: me sinto árvore


Hoje: me sinto árvore

Hoje morre Manoel de Barros. Uma das figuras poéticas mais importantes da contemporaneidade e de mensuras não calculáveis para mim.
Esse poeta tem um dos discursos mais tocantes que hoje se pode encontrar. Poética que precisa grudar na humanidade. Como limo nas pedras verdes.
Seu olhar vesgo para a poesia encontrava grandezas no ínfimo, no traste: tinha desnumerações para grandes contabilidades. Seu ato letral percorria a infância com ludicidade de inventos; transgredia a linguagem; anunciava um retorno aos princípios, avanços para os começos, onde balbuciávamos o vegetal dos nossos inícios. De onde fugimos para o maquinar-se.

Mia Couto traduziu bem meu sentimento em sua declaração, a qual parafraseio:
Triste, como se fosse parte de nós, que deixou de estar. Mas existem presenças outras que estão para além do corpo e do tempo.

Hoje, "passarinho", Manoel é voo por onde quer que asa de imaginação passe.
Hoje: me sinto árvore. Por pouso dele.



Artigos meus sobre a obra do poeta:

Memórias da Infância na poética de Manoel de Barros

Imagens Ecológicas na Poesia de Manoel de Barros


Vídeo declamação do poema “Matéria de Poesia”





sexta-feira, 8 de agosto de 2014

JOÃO REQUIZADO: BANDOLEIRO DA CHAPADA


Imagem: Harry Elsas

João Requizado, bandoleiro da Chapada, brando bravo brincalhão.
Mil vezes acossado, pelo Estado, mil também escapado:
grutas, trincheiras, pedra e salão.
Alvejado pela polícia, mas nunca bala o pegou à preguiça.
Retirava-se no garimpo esse homem, de corpo fechado e veloz.
Lambia os rios, continuava sedento. Bamburrou canto urrou.
Na Rua das Pedras a riqueza efêmera, na borda da saia da dama-mulher.
Eis que tombou o cangaceiro solitário. Um investigador a queima roupa disparou. 
Tentou fugir apagando o candeeiro, Requizado bandoleiro. Mas o intento não tanto alcançou. 
E foi enterrado em Barra do Mendes, sete palmos e todos os dentes. Findou.
O palhaço peralta: suas peripécias. No palco das serras terminou. 
Sua saga serpentina às cegas. 
O garimpeiro bandoleiro. 
Bandido-herói definhou. 

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

PARA ROMA COM AMOR




Para Roma com Amor (2012), filme de Woody Allen com participação de grandes nomes do cinema como Roberto Benigini (A vida é Bela), Penélope Cruz (a musa de Almodóvar) e Alec Baldwin, tem um enredo tecido de múltiplas tramas que envolvem, no seu bojo, aspectos culturais dos EUA e da Itália, dando um caráter bilíngue ao longa.

O marcante medo da morte é presente (mais uma vez) no personagem encenado por Woody Allen, que figura um típico americano: pragmático, utilitarista, que em tudo visa o lucro, e que é empresário do ramo da música.

As complexas relações amorosas vividas no filme mostram o jogo cômico e fluido que impregna os amores. O enredo é quebrado, assim como os paradigmas sexuais. Os fetiches e as paixões, incontroláveis...

A futilidade e o peso da fama são tratados  nessa pelicula com um tom de realismo fantástico, beirando o non sense; talvez, como forma de catalisar os sentidos e chamar à atenção para a fugacidade e superficialidade do mundo midiático.

Como de costume, neste seu filme, Woody Allen começa – e termina – com uma personagem falando diretamente para o espectador: algo que eu acho marcante (e gostoso) na sua prática cinematográfica. E o faz com uma fala-convite a conhecer e a desfrutar das ruas estreitas, das ruínas e das estórias de Roma, através de uma fotografia que encanta.

Bom filme...!

terça-feira, 13 de março de 2012

ORGASMOS COGNITIVOS

Imagem: Martha Barros


Interessante notar que a palavra CONHECIMENTO, no hebraico, tem a ver com prazer: sexo. “E conheceu Adão a Eva”... Gênesis, cap. 4.

Fiquei pensando... As Escolas, Universidades e Centros de Educação deveriam voltar à essência etimológica da palavra, e promover orgasmos cognitivos.

quarta-feira, 7 de março de 2012

A INVENÇÃO DE HUGO CABRET



Esse filme, que entrelaça drama, aventura e mistério, é uma celebração a invencionice do mundo da criança, sua irreverência criativa. O olhar do “porquê” que redescobre o óbvio. Nele o diretor usa de uma metáfora: o relojoeiro, que é uma criança. Enquanto o tempo utilizado por nós é o frio Cronos, para os pequenos é o Kairos.  Os adultos, adulterados pela frieza do real, vivem em contraposição ao mundo imaginário.

A estação de trem em que vive Hugo é uma miniatura do nosso mundo. Onde mostra o ser humano com suas belezas e tragicidades. O inspetor, ferido na guerra, aprende a sorrir e a cheirar flores. O cineasta frustrado redescobre a paixão pela arte cinematográfica...

O filme usa da metalinguagem, pois narra, também, a história do cinema.

“A invenção de Hugo Cabret” é um filme que serve de arquétipo pra filosofia de vida de todos nós, pois, no mesmo, quem protagoniza é uma criança. Aqui, nas telas do real, também era quem deveria ser.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

BANHEIRO: ESPAÇO MULTIFUNCIONAL


Sinceramente, não entendo muito as pessoas que tem revistas no banheiro.
Quando é que uma pessoa consegue ler um artigo inteiro? Quando está de desinteria?!
Eu entenderia se tivessem para ler haicais...
Agora, imagine um casal. O rapaz está lá no banheiro, a mulher bate na porta:
- Benzinho, eu to apertada, anda logo...
- Espera, mulher, ainda não terminei de ler o texto - Que coisa maluca isso...
Agora imagine se esse cara for um religioso:
- Calma, amada! Estou fazendo uma oração, pois vou começar a ler o Salmo 119. (Acontece que esse salmo tem 176 versículos!).
Outros ainda podem ampliar isso. É... Há quem diga que é alí onde se pode começar o processo criativo.  Muitos erronaeamente pensam: “Vixi... Ele esse tempo todo lá dentro. Será que foi comida estragada?!”. Quando, ao invés disso, a pessoa está produzindo uma coisa boa! Num momento de catarse, introspecção. É também interessante imaginar essa pessoa obrando, nos dois sentidos e ao mesmo tempo. Pega no papel higiênico, depois na caneta; papel higiênico, caneta... O problema só é se atrapalhar com as funções dos objetos...
Nessa coisa de andar quase que o tempo todo no mundo virtual, muitos andam levando também celular, netbooks, tablets para o banheiro... Aí o celular toca, justamente naquela hora. Pessoalmente, se meu celular tocasse nesse momento, lá dentro, eu daria descarga nele junto com o que tinha acabado de ter feito.  
Não, e tem esse lance hoje de tudo que se faz, você tira foto e posta no facebook. As pessoas viraram paparazzi de si mesmas. “Eu aqui no aniversário da boneca Barbie da minha sobrinha de 3 anos”. Pelo amor de Deus... Aí você tenta imaginar uma pessoa dessa no banheiro, o que ela vai postar... “Gente, antes de puxar a cordinha da descarga, tirei a foto de minha obra de arte para mostrar a vocês...”
Ah, não, não... Desisto. A melhor coisa que se faz no banheiro é mesmo o prazer... das nossas necessidades FISIOLÓGICAS.

domingo, 24 de abril de 2011

VARIAÇÕES SOBRE O PRAZER


O mais recente livro de Rubem Alves é escrito por quem encheu o saco de teorias insípidas e epistemologias insossas. De quem cujo laboratório agora é a cozinha: “degustar a vida” é a proposta essencial.

Bastante inspirado em Barthes, o autor se volta ferozmente ao academicismo, aos cientistas e filósofos – de certa forma até exagerada. Na sua opinião, o absolutismo da razão engaiola a vida: “não há pássaros soltos de vôo imprevisto” no mundo positivista em que ainda vivemos. Ele faz uma distinção entre os filósofos e os poetas: os aqueles “pensam sob a luz de lâmpadas fluorescentes”; estes, “sob a luz de velas”... Afirma que o problema de alguns eruditos é que eles leem “até ficarem estúpidos”. E declara que as universidades estão cheias deles.

O escritor dialoga também com Nietsche e com a cozinheira Babette, com os poetas Adélia Prado, T.S. Eliot, Fernando Pessoa e Manoel de Barros. E convida-nos às desaprendências...

Declara o autor que temos medo do prazer. Não sabemos lidar com. Ou exageramos para menos ou para mais. E aponta uma causa disso: “a espiritualidade ocidental foi construída sobre a negação do prazer”. Aí me lembrei de um verso que eu mesmo escrevera um tempo atrás: “o pecado assumiu a paternidade do prazer...”.

Como de praxe, ele também entra no campo da Educação e faz uma assertiva: “a escola não ensina o sabor”. E por isso que não se educa: quando muito, se transmite dados. Neste momento faz alusão a Paulo Freire como proposta.

Assim, o autor vai sugerir ao leitor(a) que ele/ela ao invés de tentar compreender a vida, deguste-a. E lança mão de um verso de Pessoa, que diz: “sinto-me nascido a cada momento para a eterna novidade do mundo...”.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

SOBRE O ALUNO-OBJETO E O MERCADO-SUJEITO



Aquela coisa de formar pessoas ativas para o exercício da cidadania e para a ação transformadora no mundo na educação é algo démodé. Agora - escrachadamente – temos que atender as exigências do Mercado. Somos produtos que passamos quatro, cinco, seis anos nas universidades/faculdades (sem contar a educação básica e pós-graduações) sendo confeccionados para Ele. Este dita as regras: quem entra e quem sai; quem é absorvido ou jogado fora. O mercado é, portanto, nosso tamagoshi maior, que alimentamos, e que doravante nos devora.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

URGE UM DESPERTAR...!



Texto para a Blogagem Coletiva – Professores do Brasil.



Pensar em Educação inevitavelmente é pensar num dos seus principais agentes: o professor. Ele mexe com a difícil e desafiante arte de mediar o conhecimento e as aprendências, de transformar visões de mundo para mais e para melhor, de, em suma, educar.
Este profissional há muito carrega em si sentimentos ambivalentes de importância e descaso. A relação entre o que um professor investe/se doa e o que lhe é retribuído, sem dúvida – e via de regra –, é dispare e contrastante. Não é à toa que muitos têm se fatigado nesse processo. Professores e professoras bons, dedicados. Que além de serem mal pagos, vêm na educação – principalmente pública – um nítido descaso (quase que total) por parte de seus diversos entes. Percebem uma estrutura aviltante nos sistemas educacionais que externam uma pratica laissez-faire dos políticos, entes da educação e comunidade escolar.
É imperioso haver um despertar para a educação como ferramenta maior, essencial e efetiva na nossa sociedade. E é mister ululante, deste modo, dignificar a atividade do magistério. Não com meras palavras, mas com uma política de valorização real, tornando a educação de fato o eixo principal para as transformações sociais tão necessárias à sociedade brasileira. E não tem (para ser prático e direto) como isso não passar, sobretudo, pelo viés remuneratório dos docentes, da formação dos mesmos nas universidades e pela estrutura física das escolas em que eles vão atuar; além da sensibilização do ambiente escolar e extra-escolar.
Portanto, fica a mensagem de que algo revolucionário – não dá mais para ser mudanças de modelagem – é necessário nas políticas educacionais do Brasil, e também que, cada um de nós pode e está desafiado a ser instrumento para isso.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

SELAS DE AULA


Ser professor – acredito, mas do que nunca, é um desafio imenso, que consome muita energia, e que para muitos já se tornou uma frustração: “educastração” (de si mesmo e de do outro). A questão se pauta em alguns pontos cruciais que, para sofrerem mudanças salutares, precisam de um esforço conjunto entre vários entes que estão ligados direta ou indiretamente ao processo de Educação no país, a saber, os principais: pais, estudantes, professores e políticos (parlamentares e governantes).
Primeiro: tiremos a exclusiva responsabilidade da educação do giz/pincel do professor/a. Os pais precisam dar total apoio neste processo. Dentro de casa e na escola, discutindo com seus filhos, com os professores/as e diretores/as o melhor para o processo pedagógico.
Aos políticos cabe o compromisso real com o país e não com seu umbigo e bolso (mensalão, cartão corporativo, nepotismo etc.); e que, como resultado deste compromisso, tomem medidas drásticas, repito, drásticas, e efetivas para uma revolução a curto-médio prazo na educação desta nação.
Há muitas medidas a serem tomadas, de fato. Entretanto, uma das principais e mais urgentes é dar dignidade salarial/remuneratória aos agentes pedagógicos. Chega de desvalorização! O/A professor/a é um profissional que precisa e merece ser bem valorizado, bem pago, e assim, incentivado a pesquisar, a se atualizar, a criar e até mesmo permanecer na sua profissão.
O Governo através de uma recente campanha publicitária na TV vem buscando incentivar as pessoas a seguir profissionalmente os caminhos do magistério. Por quê? Porque o contrário é que está acontecendo. Conheço colegas que se formaram comigo e nem sequer pensam em pisar o pé na escola. Querem seguir outras carreiras. Pior, conheço vários professores dos ensinos fundamental e médio que estão – depois de um bom tempo de docência – abandonando as salas para irem procurar emprego no comércio, na indústria e – principalmente – em instituições púbicas que pagam mais e onde se é mais valorizado. A castração – com raras exceções – é geral nas instituições escolares. E ninguém quer perder o seu orgasmo. Todos e todas querem fazer o que gostam e serem bem retribuídos por isto.
Deste modo, ou as condições educacionais mudam (torço e quero ser instrumento para isso) de forma contundente, ou o contexto escolar será um lugar para poucas/os heroínas/heróis e/ou para muitas/os fingidoras/fingidores, agentes da educastração, que farão das salas selas de aula – como já infelizmente acontece.

domingo, 16 de agosto de 2009

A PRÁTICA EDUCATIVA: uma contribuição reflexiva para estudantes e professores.



Qual é o sentido de estar na escola ou na universidade? Você já se fez esta pergunta?

Em lendo a Pedagogia da Autonomia do ilustre mestre, Paulo Freire, me veio tal questionamento; então tive que responder a mim mesmo, o que me levou a refletir e concluir que, pelo menos, três funções tem a educação: a formação Profissional, a formação cognoscente-interpretativa e a formação ético-ontológica.

Formar profissionais é imperioso para a harmonização da sociedade. Os papéis profissionais estão ligados diretamente à sobrevivência, principalmente no sistema capitalista em que vivemos. Se eu não trabalhar, não tenho renda, não tenho dinheiro, não tenho poder de compra: não sobrevivo, em suma. Entretanto, a profissionalização não está ligada tão-somente às necessidades básicas, mas ainda a status, ascensão social, conforto, o que em parte são coisas boas, podendo, contudo, tornarem-se perigosas, principalmente quando nos levam a passar por cima de tudo e de todos em prol de um desejo muitas vezes egocêntrico. O bom profissional é aquele que serve, pois como afirma um velho adágio popular "se não servimos para servir, não servimos para a vida...". Assim, a nossa responsabilidade enquanto profissionais é meta-umbilical, devemos estar comprometidos com o mundo que nos cerca: é muito importante estarmos cônscios disto já no processo de formação.

A formação cognoscente-interpretativa é aquela que nos leva a conhecer e interpretar o mundo. Uma criança de seis ou sete anos, na primeira série, vai aprender a ler e a escrever, no entanto ele já interpreta, ainda que muito parcialmente, o seu mundo, à base do senso comum. Ela sabe diferenciar o quente do frio, uma televisão de um rádio... Mas quando começa a ler, entra no mundo das letras, da ciência, a sua cosmovisão se amplia, assim como a sua capacidade de discutir a vida; começa a ter explicações lógico-científicas para os fenômenos naturais: porque a chuva cai, o avião voa, as pessoas ficam doentes, etc. Portanto, a escola/faculdade é um ambiente de conhecimento e interpretação do mundo e de tudo que está a ele relacionado.

Quanto ao aspecto ético-ontológico, é, provavelmente, na prática educativa, o elemento mais importante; no entanto o mais negligenciado. Fico a pensar numa sociedade cheia de profissionais excelentes em técnica, em exeqüibilidade laborativa; bem nutrida de intelectuais, e, entretanto, vazia de seres éticos - sem respeito mútuo, sem cordialidade, emergida em individualismo. Não haveria flexibilidade, seríamos todos irredutíveis quanto às nossas "verdades absolutas", nunca seria possível ver o próximo, o outro, o não-eu. A educação não pode se resumir ao treinamento técnico e/ou à intelectualização, mas, acima de tudo, a saber viver, pois: "é preciso saber viver".

Desta forma, segue, pois, o desafio de conhecer holisticamente, sem neofobia, amantes de uma educação que forma o ser integral para uma ação transformadora no mundo.