quarta-feira, 16 de maio de 2018

PREVIDÊNCIA ANIMAL

         O Jaburu, presidente dos animais, juntamente com o Leão, seu Ministro da Fazenda, convocou a imprensa para uma coletiva a fim de informar sobre o déficit previdenciário, aparentemente existente na república animal. Falou que muito do "rombo" da previdência se deve à aposentadoria precoce das centenárias tartarugas, do expressivo salário-maternidade "dado" às coelhas, além dos inúmeros benefícios concedidos aos vira-latas, como o auxílio-exclusão. A bicharada ficou revoltada, sobretudo a galinha de granja, que trabalha em regime de escravidão, pondo 40 ovos por dez reais e tendo expectativa de vida de 8 semanas.
         O presidente Jaburu disse à população que não tinha o que temer, pois o Congresso Animal, formado por aves de rapinas, tinham pena, e não iriam curvar seus bicos diante desta grave situação. "Todos os animais (em suas questões) seriam devidamente apreciados", afirmou o seu ministro Leão.
         A discussão previdenciária, hoje, está pendente, até que se vote as eleições de outubro, que nesse pleito, tem proibida a candidatura de animais marinhos como Lula; e põe-se em dúvida outros bichos que venham da marina...
        O Jaburu pensa em pousar novamente no Planalto. Tucanos já escolheram seu candidato. Boisonaro quer tomar o poder. "Quem será o escolhido pela fauna de eleitores?" - pergunta a Esfinge. Quem não responder certo... Pode morrer.


segunda-feira, 16 de abril de 2018

quinta-feira, 12 de abril de 2018

A ESTRUTURA DA LÍRICA MODERNA


HUGO FRIEDRICH
(1904-1978)



           Um dos livros que mais discutem a poesia moderna, iniciada no século XIX em Baudelaire, tendo continuação em  Rimbaud e Mallarmé e passando no século XX por T. S. Eliot e tantos outros poetas, tem como marca a ruptura com a tradição literária, produzindo uma dissonância na lírica, trazendo-a para o locus horrendus da urbe, inaugurando na poesia tratamento de assuntos e de temas considerados, até então, como antipoemáticos. Friedrich faz uso de pensadores como Rousseau e Diderot para discutir esse fenômeno e a tessitura dessa nova poesia.
              Seguem alguns fragmentos de minha leitura aqui compartilhada:


  • "Nos fenômenos literários, 'estrutura' designa uma tessitura orgânica, uma comunhão tipológica do diverso". 
  • “A poesia pode comunicar-se, ainda antes de ser compreendida”
  • “... até mesmo ao próprio poeta o conhecimento do sentido daquilo que compôs é limitado”
  • A poesia é: “movimento emocional por meio de metáforas” (Diderot)  
  • A poesia é "magia linguística", "a língua originária da humanidade, a língua total do sujeito". 
  • "Há uma paridade da poesia com a magia"
  • "O poeta serve-se das palavras como teclas, tocando o piano das palavras"
  • “O artista moderno: a capacidade de ver no deserto da metrópole não só a decadência do homem, mas também de pressentir uma beleza misteriosa, não descoberta até então.” 
  • “Segundo Baudelaire, para se penetrar a alma de um poeta, tem-se de procurar aquelas palavras que aparecem mais amiúde em sua obra. A palavra delata qual é a sua obsessão.” 
  • “Para Mallarmé, o poetar significa renovar tão radicalmente o originário ato criativo da linguagem que o dizer seja sempre dizer o que não foi dito até então”.
  • "Às vezes o poema quer mais soar do que dizer. O verso nem sempre pretende ser compreendido, mas apenas ser acolhido como sugestão sonora". 



segunda-feira, 19 de março de 2018

SOBRE O CUIDADO DA CASA COMUM





A expressão “Laudato si’” significa “louvado seja”. E vem de um canto comum que saia da boca de São Francisco de Assis: “Laudato Si’, mi Signore”: Louvado sejas, meu senhor. Francisco de Assis ficou conhecido como o “santo” dos animais (e poucos sabem, mas, também, é tido como o padroeiro da Ecologia).

Italiano, da cidade de Assis, era filho de um comerciante abastado; largou tudo para vivenciar a experiência do evangelho simples. Costuma-se contar que em suas pregações ao ar livre os bichos se ajuntavam a ele. Considerava-se irmão do Sol, da Água, das estrelas e dos bichos.

Jorge Mario Bergoglio é o primeiro papa latino-americano, também o primeiro pontífice do hemisfério sul e o primeiro a utilizar o nome de Francisco (referência explícita a Francisco de Assis). A escolha, segundo o próprio papa, visa ao cultivo da simplicidade, da atenção aos pobres e do cuidado da casa comum: nosso planeta.

Nesse espírito é que o papa escreve esta encíclica, que ultrapassa questões de crença e fé religiosa (apesar também de incluí-las) e abrange crentes e não crente em prol de um olhar para a mãe Terra como nossa casa comum: lugar de habitação e acolhimento. E que, por isso, exige de nós uma postura ativa de cuidado com nossa moradia. Cuidado, aliás, é a palavra-mote deste livro.  

Seguem alguns trechos desta Carta Encíclica que me chamaram excepcionalmente a atenção. E por isso compartilho aqui:

  • A nossa casa comum se pode comparar ora a uma irmã, com quem partilhamos a existência, ora a uma boa mãe, que nos acolhe nos seus braços.
  • Crescemos pensando que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la. [...]. Esquecemo-nos de que nós mesmos somos terra. 
  • As invenções técnicas mais assombrosas, o desenvolvimento económico mais prodigioso, se não estiverem unidos a um progresso social e moral, voltam-se necessariamente contra o homem.
  • Toda a pretensão de cuidar e melhorar o mundo requer mudanças profundas «nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder, que hoje regem as sociedades. 
  • A degradação da natureza está estreitamente ligada à cultura que molda a convivência humana 
  • Todos, na medida em que causamos pequenos danos ecológicos», somos chamados a reconhecer «a nossa contribuição – pequena ou grande – para a desfiguração e destruição do ambiente.
  • Um crime contra a natureza é um crime contra nós mesmos... 
  • Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. [...] Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e numa maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e consigo mesmo. [...] Para ele, qualquer criatura era uma irmã, unida a ele por laços de carinho.
  • ... ousar transformar em sofrimento pessoal aquilo que acontece ao mundo e, assim, reconhecer a contribuição que cada um lhe pode dar. 
  • A humanidade é chamada a tomar consciência da necessidade de mudanças de estilos de vida, de produção e de consumo, para combater este aquecimento ou, pelo menos, as causas humanas que o produzem ou acentuam.
  • É trágico o aumento de emigrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental, que, não sendo reconhecidos como refugiados nas convenções internacionais, carregam o peso da sua vida abandonada sem qualquer tutela normativa. 
  • Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem.
  • ... para o bom funcionamento dos ecossistemas, também são necessários os fungos, as algas, os vermes, os pequenos insectos, os répteis e a variedade inumerável de micro-organismos. 
  • Mas o custo dos danos provocados pela negligência egoísta é muitíssimo maior do que o benefício econômico que se possa obter.
  • Com efeito, há propostas de internacionalização da Amazônia que só servem aos interesses econômicos das corporações internacionais. É louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica, inclusive utilizando legítimos mecanismos de pressão, para que cada governo cumpra o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou internacionais.
  • Visto que todas as criaturas estão interligadas, deve ser reconhecido com carinho e admiração o valor de cada uma, e todos nós, seres criados, precisamos uns dos outros.
  • Não é conveniente para os habitantes deste planeta viver cada vez mais submersos de cimento, asfalto, vidro e metais, privados do contato físico com a natureza [...]  Esta falta de contato físico e de encontro, às vezes favorecida pela fragmentação das nossas cidades, ajuda a cauterizar a consciência e a ignorar parte da realidade.
  • Geralmente, quando cessam as suas atividades [as multinacionais] e se retiram, deixam grandes danos humanos e ambientais, como o desemprego, aldeias sem vida, esgotamento dalgumas reservas naturais, desflorestamento, empobrecimento da agricultura e pecuária local, crateras, colinas devastadas, rios poluídos e qualquer obra social que já não se pode sustentar.
  • É preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana.
  • É necessário recorrer também às diversas riquezas culturais dos povos, à arte e à poesia, à vida interior e à espiritualidade. Se quisermos, de verdade, construir uma ecologia que nos permita reparar tudo o que temos destruído, então nenhum ramo das ciências e nenhuma forma de sabedoria pode ser transcurada... 
  • As diferentes criaturas, queridas pelo seu próprio ser, refletem, cada qual a seu modo, uma centelha da sabedoria e da bondade infinitas de Deus.
  • Sentir cada criatura que canta o hino da sua existência é viver jubilosamente no amor de Deus e na esperança.
  • [...] nenhuma criatura se basta a si mesma. Elas só existem na dependência umas das outras, para se completarem mutuamente no serviço umas das outras.
  • Toda a abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos.
  • O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos. Quem possui uma parte é apenas para a administrar em benefício de todos. Se não o fizermos, carregamos na consciência o peso de negar a existência aos outros.
  • Com efeito, a técnica tem tendência a fazer com que nada fique fora da sua lógica férrea, e o homem que é o seu protagonista sabe que, em última análise, não se trata de utilidade nem de bem-estar, mas de domínio; domínio no sentido extremo da palavra. Por isso, procura controlar os elementos da natureza e, conjuntamente, os da existência humana. Reduzem-se assim a capacidade de decisão, a liberdade mais genuína e o espaço para a criatividade alternativa dos indivíduos.
  • A fragmentação do saber realiza a sua função no momento de se obter aplicações concretas, mas frequentemente leva a perder o sentido da totalidade, das relações que existem entre as coisas... 
  • A cultura ecológica não se pode reduzir a uma série de respostas urgentes e parciais para os problemas que vão surgindo à volta da degradação ambiental, do esgotamento das reservas naturais e da poluição. Deveria ser um olhar diferente, um pensamento, uma política, um programa educativo, um estilo de vida e uma espiritualidade que oponham resistência ao avanço do paradigma tecnocrático. 
  • Ninguém quer o regresso à Idade da Pedra, mas é indispensável abrandar a marcha para olhar a realidade doutra forma, recolher os avanços positivos e sustentáveis e ao mesmo tempo recuperar os valores e os grandes objetivos arrasados por um desenfreamento megalômano. 
  • As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.
  • A visão consumista do ser humano, incentivada pelos mecanismos da economia globalizada atual, tende a homogeneizar as culturas e a debilitar a imensa variedade cultural, que é um tesouro da humanidade. 
  • Toda a intervenção na paisagem urbana ou rural deveria considerar que os diferentes elementos do lugar formam um todo, sentido pelos habitantes como um contexto coerente com a sua riqueza de significados.
  • Aprender a aceitar o próprio corpo, a cuidar dele e a respeitar os seus significados é essencial para uma verdadeira ecologia humana. Também é necessário ter apreço pelo próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade, para se poder reconhecer a si mesmo no encontro com o outro que é diferente. 
  • Não se pode sustentar que as ciências empíricas expliquem completamente a vida, a essência íntima de todas as criaturas e o conjunto da realidade. Isto seria ultrapassar indevidamente os seus confins metodológicos limitados. Se se reflete dentro deste quadro restrito, desaparecem a sensibilidade estética, a poesia e ainda a capacidade da razão perceber o sentido e a finalidade das coisas.
  • Falta a consciência duma origem comum, duma recíproca pertença e dum futuro partilhado por todos. 
  • Comprar é sempre um ato moral, para além de econômico.
  • É muito nobre assumir o dever de cuidar da criação com pequenas ações diárias, e é maravilhoso que a educação seja capaz de motivar para elas até dar forma a um estilo de vida.
  • Além disso, o exercício destes comportamentos restitui-nos o sentimento da nossa dignidade, leva-nos a uma maior profundidade existencial, permite-nos experimentar que vale a pena a nossa passagem por este mundo.
  • Quanto menos, tanto mais. Com efeito, a acumulação constante de possibilidades para consumir distrai o coração e impede de dar o devido apreço a cada coisa e a cada momento.



Indicações:

Encíclica papal Laudato Si’ – O cuidado da Casa Comum:
http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.pdf

Canção "Sal da Terra":
https://www.youtube.com/watch?v=Kiok0T2WHf4

Ecopoética –  Ecologia, Imagem e Literatura:
https://www.youtube.com/watch?v=4-NlvxPhh9w


sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

A ARTE DE ESCREVER

A ARTE DE ESCREVER
Schopenhauer
(1788 – 1860)


Trata-se esse livro de escritos curtos de Schopenhauer, pensamentos e reflexões, sobre a escrita, sobre a língua e a literatura do século XIX, especialmente a alemã. Mas que tem valor para quem escreve ou pesquisa sobre linguagem. Abaixo, alguns trechos mais relevantes:

- Ao aprender uma língua, estaríamos ampliando e refinando nosso acervo de conceitos.
- Só chegará a elaborar novas e grades concepções fundamentais aquele que tenha suas próprias ideias com objetivo direto de seus estudos.
- Não é possível alimentar os outros com restos não digeridos, mas só com o leite que se formou a partir do próprio sangue.
- A maioria dos eruditos é muito superficial.
- Nenhum indivíduo pode saber sequer a milésima parte daquilo que é digno de ser sabido.
- A verdadeira formação para a humanidade exige universalidade e uma visão geral (...) conhecimento enciclopédico.
- O excesso de leitura tira do espírito toda sua elasticidade.
- Os eruditos são aqueles que leram coisas nos livros, mas os pensadores, os gênios, os fachos de luz, e promotores da espécie humana são aqueles que as leram diretamente no livro do mundo.
- Todo pensador autentico se assemelha a um monarca: ele atua diretamente e não reconhece ninguém acima de si.
- Todo autor se trona um escritor ruim assim que escreve qualquer coisa em função do lucro.
- Quem tem algo digno de menção a ser dito não precisa ocultá-lo em expressões cheias de preciosismos, em frases difíceis e alusões obscuras.
- O adjetivo é o inimigo do substantivo.
- Os prefixos e sufixos são modulações de cada conceito fundamental no teclado da língua.
- Poucos escrevem como o arquiteto constrói.
- A língua é uma obra de arte e deve ser considerada como tal.
- Os trabalhos substituem o saber e ocupam o pensamento.
- Quando lemos, outra pessoa pensa por nós... Somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar.
- Escrevem-se livros sobre este, ora sobre aquele grande espírito do passado, e o público os lê, mas não lê os próprios autores dos quais eles tratam.
- A repetição é a mãe do estudo.
- A palavra dos homens é o material mais duradouro. Se um poeta deu corpo à sua sensação passageira com as palavras mais apropriadas, aquela sensação vive através dos séculos nessas palavras e é despertada novamente em cada leitor receptivo.